Por Profa Laís Cristina Almeida, Ft, Psic, MSc, ESP, DO MRO Br
Em formação em Psicanálise pelo Círculo Psicanalítico de Minas Gerais
Esse breve estudo sugere que as redes sociais, enquanto modalidade contemporânea de laço social, quando utilizadas de forma excessiva, podem incidir sobre a economia psíquica do sujeito, favorecendo formas de expressão do mal-estar psíquico. Então, passa a funcionar como uma espécie de narcótico, nos distanciando da realidade, daquilo que realmente nos aflige, que é a manutenção de vínculos afetivos, busca pela identidade e lugar no mundo.
Narcisismo, Voyeurismo e Exibicionismo nas Redes Sociais
Introdução
Freud (1914) introduz o conceito de narcisismo considerando os investimentos libidinais. Então ele estabelece que existe um equilíbrio entre libido do Ego e a libido objetal, quanto mais se emprega uma mais empobrece a outra.
Piazza (2020) retoma esse dizer de Freud na atualidade, relatando que vivemos uma época de hiperconexão e ao mesmo tempo de muito isolamento. O drama da individualidade é um drama social. Compartilhamos do sentimento da falta de compartilhar. Somos atores e plateia dessa grande sociedade do espetáculo. Piazza (2020) cita como exemplo a função “Stories” no Instagram e Facebook que vulgariza o máximo o circuito instantâneo do voyeurismo-exibicionismo no qual estamos todos imersos. Sugerindo então que quanto mais investimos de forma excessiva na imagem, através das mídias, mais empobrecidos ficamos enquanto sujeito.
Mito de Narciso na Era Digital
O Mito de Narciso deu origem ao termo narcisismo, descrevendo o amor excessivo por si mesmo. Narciso representa a admiração excessiva, a vaidade, a obsessão pela própria imagem e o desinteresse pelo mundo exterior.
O Mito de Narciso ressoa na Era digital, podendo refletir a sua sina, onde o prazer excessivo de olhar e ser olhado, de exibir, numa busca incessante por aplauso, aprovação e dos comentários que alimentam uma ilusão, e também onde a imagem idealizada substitui a subjetividade.
Segundo Lima (2015), as redes sociais retratam opiniões, induzem comportamentos, influenciam a construção do sujeito, permitem aos usuários apresentarem-se da forma como desejam serem vistos pelos demais, e assim tornando-se o palco do espetáculo da vida cotidiana, em uma profusão de imagens compartilhadas instantaneamente via computadores e dispositivos móveis.
Narcisismo, Voyeurismo e Exibicionismo em Freud
De acordo com Freud (1914), as pulsões sexuais são numerosas, originando-se de múltiplas fontes orgânicas, elas atuam de início independente uma das outras, e apenas posteriormente são reunidas numa síntese mais ou menos completa. Uma parte dessas pulsões permanece associada às pulsões do Eu, dotando-as de componentes libidinais. A meta que cada uma delas procura atingir é o prazer do órgão. Somente após efetuada a síntese, elas entram a serviço da função reprodutiva, tornando-se reconhecidas como pulsões sexuais e apoiando-se inicialmente nas pulsões de conservação. As pulsões podem trocar facilmente seus objetos, portanto, são capazes de ações diferentes das metas originais. Assim as pulsões sexuais podem experimentar destinos diversos no curso da sua evolução, tais como, a reversão ao contrário, o voltar-se contra a própria pessoa, o recalque, a sublimação. A reversão ao contrário, que é abordado nesse estudo, encontra-se nos pares, sadismo-masoquismo e voyeurismo-exibicionismo. A reversão ao contrário diz respeito apenas às metas da pulsão, substituindo a meta ativa de atormentar e olhar, pela passiva de ser atormentado e ser olhado.
Continuando com Freud (1914), no primeiro estágio do voyeurismo-exibicionismo tem-se o olhar como atividade dirigida a um outro objeto. No segundo estágio, ocorre o abandono do objeto, e a volta da pulsão de olhar para uma parte do próprio corpo, ocorrendo então a reversão em passividade e a constituição da nova meta que é ser olhado. Finalmente, a introdução de um novo sujeito a qual o indivíduo se mostra para ser olhado por ele. A pulsão de olhar autoerótica no início de sua atividade, pode ter um objeto, mas encontra-o no próprio corpo. Apenas depois o indivíduo é levado a trocar esse objeto por um análogo no corpo alheio, e nesse contexto difere do sadismo.
Em todas as fases do desenvolvimento da pulsão, tanto a fase preliminar autoerótica, como a forma final ativa e passiva, subsiste uma ao lado da outra. O estágio preliminar da pulsão de olhar, em que o prazer de olhar tem o próprio corpo como objeto, pertence ao narcisismo, é uma formação narcísica. A partir dele se desenvolve a pulsão ativa de olhar, à medida que abandona o narcisismo, mas a pulsão passiva de olhar se atém ao objeto narcísico. Para ele os pares de opostos, sadismo-masoquismo, prazer de olhar-prazer de mostrar, explicita as pulsões que aparecem de forma ambivalente, e que uma grande ambivalência pulsional em um ser humano de hoje, pode ser apreendida como herança arcaica.
Considerações sobre Narcisismo, Voyeurismo e Exibicionismo
Narcisismo
Em conformidade com o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1986), o narcisismo significa o estado em que a libido é dirigida ao próprio Ego, amor excessivo a si mesmo, autoadmiração e autocontemplação.
Para Freud (1914), o Ego deve ser considerado como um grande reservatório de libido, de onde ela é enviada aos objetos, e que está sempre pronto para absorver libido que reflete dos objetos. O valor dos conceitos de libido do Eu e libido de objeto, está em que derivam da elaboração de características intimas dos processos neuróticos e psicóticos.
Laplanche e Pontalis (2022) relata que o narcisismo por referência ao mito de Narciso, é o amor pela imagem de si mesmo, e que o narcisismo primário designa um estado precoce em que a criança investe toda sua libido em si mesma, enquanto o narcisismo secundário designa um retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos objetais.
Voyeurismo
Significa, de acordo com o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1986), a excitação sexual ao observar a cópula praticada por outros, ou simplesmente ao ver os órgãos genitais de outrem, independentemente de qualquer atividade própria.
Silva (2017) descreve que atualmente temos uma ampliação das manifestações voyeuristas, que ecoa na curiosidade exacerbada em conhecer detalhes e momentos de intimidade alheia, através da pulsão de olhar e de obter prazer em observar.
Exibicionismo
Para o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1986), é a mania de exibir as partes genitais, mania ou gosto de ostentação e exibição.
Silva (2017), diz que o exibicionismo na atualidade é a exposição do próprio corpo para ser visto, como nas selfies. Nesse contexto atual do narcisismo, o exibicionista expõe uma imagem idealizada de si mesmo para obter a atenção e admiração que validem seu senso de importância. Portanto, o outro não é visto como sujeito, mas como meio para afagar o ego.
Santos (2019), comenta que a pulsão escopofílica faz par com o exibicionismo, contudo o exibicionismo tem um componente narcísico mais marcante.
Interação entre Narcisismo, Voyeurismo e Exibicionismo
Os avanços tecnológicos das últimas décadas segundo Raimundo e Teixeira (2021), reforçaram os comportamentos exibicionistas e voyeuristas, que sempre estiveram presentes na constituição do sujeito, ainda que na forma de fantasia, mas que agora vem ganhando notoriedade através das plataformas digitais.
Nas plataformas digitais, existem uma interação entre narcisismo, voyeurismo e exibicionismo, ou seja, o narcisista busca a exibição de uma imagem perfeita, enquanto os usuários, como voyeurs, assistem e, muitas vezes sentem-se compelidos a exibirem-se, criando uma dinâmica mútua “de espiar” e “ser espiado”. Em ambos os casos a distinção entre sujeito e objeto pode não estar clara, pois o outro é instrumentalizado para satisfação da própria pulsão, seja ela de mostrar ou de ver. A imagem e o olhar do outro validam a existência pessoal, preenchendo um vazio interno e reafirmando o ego. Conforme Santos (2016), nas redes sociais todos querem ser protagonistas, colocarem-se em tela, um gozo em que todos gozam e se tornam objetos de gozo.
A própria imagem passa a ocupar o foco central, na medida em que o corpo é exibido ao olhar alheio como forma de validação simbólica, inserindo o sujeito em um ciclo contínuo de exposição e reconhecimento, característico da cultura do narcisismo.
O curtir o compartilhar e o comentar funcionam também como validação, onde o outro a observar e reagir, confirma a existência e a grandiosidade do Eu narcísico (LASCH 1979; SILVA 2017).
Para Santos (2019), uma das características da atualidade que a distingue de épocas passadas, é a forte presença da indústria cultural a nível mundial no cotidiano dos indivíduos. Com essa constante presença, os padrões estéticos tornaram-se bastante homogêneos e ganharam força a ponto de mobilizar as pulsões voyeur e exibicionista para a manifestação de comportamentos valorizados socialmente, tal como o culto do corpo realizado nas academias de ginástica.
O Eu digital das imagens exibicionistas pode ser considerado um simulacro da realidade, na medida que se tornou um “modelo” do Eu ideal (Nero, 2015).
Arte no Narcisismo, Voyeurismo e Exibicionismo
A arte sempre funcionou como uma manifestação das pulsões humanas, incluindo o narcisismo, o voyeurismo e o exibicionismo. Essas pulsões nas artes em geral, são manifestações simbólicas e coletivas. As pulsões do Eu, do olhar e da exibição são expressões artísticas retratadas na pintura, na fotografia, no cinema, entre outras formas, e, atualmente, no meio digital.
Na música “Sampa” Caetano Veloso retrata poeticamente o narcisismo:
… Quando eu te encarei frente a frente, não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes…
Artes plásticas e Narcisismo
Metamorfose de Narciso – Salvador Dali (1937)
Narciso – Caravaggio (1597-1599)
Eco e Narciso – Jonh William Waterhouse (1903)
Narciso – Gyula Benczúr (1881)
O Balanço – Jean-Honoré Fragonard (1767)
Marcelle Lender Dancing the Bolero in “Chilpéric” – Henri de Toulouse-Lautrec (1895)
Referências
CARVALHO, L. F.; CESCA, G. S. O espetáculo na sociedade e o conflito entre o público e o privado. Disponível em: https://periodicos.rdl.org.br/anacidil/article/view/700. Acesso em: 13 jan. 2026.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3. ed. Curitiba: Positivo, 1986.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914‑1916). Obras completas – Volume 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. ISBN: 978‑85‑3591‑606‑5.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean‑Bertrand. Vocabulário da psicanálise. Tradução de Pedro Tamen. São Paulo: Martins Fontes, 2022.
LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
LIMA, Cláudia Cyléia de. O selfie como expressão de moda e narcisismo contemporâneos. Piauí: Moda Documenta – Museu, Memória e Design, 2015.
NERO, Fábio Del. Imagens exibicionistas no Facebook: espetáculo, narcisismo e simulacro. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade Cásper Líbero, São Paulo, 2015. Disponível em: https://casperlibero.edu.br/wp-content/uploads/2015/11/FÁBIO-DEL-NERO.pdf. Acesso em: 20 mai. 2021.
PIAZZA, Bárbara. O voyeurismo e o exibicionismo nas redes sociais. Disponível em: https://barbarbarpiazza.medium.com/o-voyeurismo-e-o-exibicionismo-nas-redes-sociais-812f678fec. Acesso em: 13 jan. 2026.
RAIMUNDO, A. T.; PEREIRA, M. T. N. Entre o exibicionismo e voyeurismo na era digital: a necessidade de ver e ser visto. Disponível em: https://repositorio.alfaunipac.com.br/publicacoes/2021/588_entre_o_exibicionismo_e_voyeurismo_na_era_digital_a_necessidade_de_ver.pdf. Acesso em: 13 jan. 2026.
SANTOS, F. dos. Corpo e sexualidade em diferentes suportes: da pré-história à era digital [Internet]. Universidade Estadual Paulista (Unesp), 2019. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/190988.
SILVA, Márcio Roberto Santim da. Culto ao corpo: expressões contemporâneas do exibicionismo e voyeurismo. Tese (Doutor em Psicologia Social) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo
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