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A Pele Que Nos Envolve

23 de junho de 2026
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Por Profa Laís Cristina Almeida, Ft, Psic, MSc, ESP, DO MRO Br

Formação em Psicanálise pelo Círculo Psicanalítico de Minas Gerais

 

A Pele Que Nos Envolve

Uma Zona Erógena Especial

Figura 1 – A criação de Adão. Michelângelo Buonarotti, 1508

 

Reconhecer a pele como zona erógena foi surpresa e prazer, espanto e encanto, já que toco diariamente essa zona erógena, onde pulsa e inscreve-se as nossas vivências mais remotas.

O corpo além de ser biológico é também erógeno, pois nele são inscritas as marcas de prazer e desprazer a partir da relação com o outro e com o mundo. A pele é a membrana decodificadora dessas marcas, viabilizando as percepções sensoriais, táteis, que posteriormente, serão inscritas no registro simbólico.

Segundo Freud (1914), podemos nos decidir a ver na erogeneidade uma característica geral de todos os órgãos, o que nos permitiria então falar do seu aumento ou decréscimo numa determinada região do corpo.

Ainda segundo Freud (1925), o ego é primeiro e acima de tudo, um ego corporal, não simplesmente uma entidade de superfície, mas é ele próprio a projeção de uma superfície. O ego é essencialmente a projeção mental da superfície do corpo, conforme relatou Anzieu (1988), que o Eu -pele é o envelope psíquico.

Então imagino a importância dessa vestimenta incomparável, continua e envolvente, para o nosso despertar como sujeito, delimitando o nosso espaço pessoal e nos apresentando como seres únicos e diferenciados.

Na célebre pintura “A criação de Adão” do artista italiano Michelângelo Buonarotti, Deus insufla a vida ao primeiro homem tocando o seu dedo indicador. A força e o simbolismo desse gesto representam a transmissão da vida e da alma de Deus para o Homem.

A transmissão da vida e a criação do sujeito também estão contidos nos abraços, aconchegos, acalantos, beijos, carícias, embalos, olhares, cuidados, oriundos daqueles que nos deram a vida, e de todos aqueles que conosco conviveram. Em consequência de tudo isso, o nosso sonho mais profundo não seria retornar a esse aconchego paradisíaco? Retornar a essa delícia suprema em braços ternos e amorosos? Seria esse lugar que nos falta, o desejo do retorno, o motor que nos impulsiona vida a fora em direção à realização dos nossos desejos?

A pele pode simbolizar o nosso inconsciente. Milton Nascimento e Chico Buarque verbalizam muito bem o simbolismo dessa zona erógena, na música “À flor da pele”: o que será que brota à flor da pele, que bole por dentro, que não tem medida, nem remédio, nem juízo, nem vergonha. Também Zeca Baleiro exprime esse inconsciente na música “Flor da pele”: a pele que tem o fogo do juízo final, um barco sem porto e sem vela.

Nessas belas metáforas da pele, que representam uma flor que se abre de dentro para fora, e mostra na superfície aquilo que está dentro, que mostra o algo que não tem controle, que perturba nosso sono, mostra o nosso incomensurável desamparo.

A pele e o tocar, são interconectados. Tocar e ser tocado não são estímulos sensoriais impessoais, já que significam uma realização simbólica na busca de intimidade, aceitação, tranquilização e conforto. A pele é considerada o nosso órgão mais primitivo, e o tato é o sentido que está mais intimamente ligado à pele, é o primeiro a desenvolver-se no embrião. Ambos os sistemas tegumentar e nervoso originam-se na camada mais externa dos três sistemas embrionários, o ectoderma. Portanto, as experiências precoces táteis não podem ser rememoradas pela linguagem verbal, já que foram impressas em um registro sensorial corporal. Esse período sensorial é o primeiro registro da história do sujeito, viabilizando a sua capacidade de representação. O toque pode então ser considerado a forma precursora da linguagem, que vai sendo aprimorada com o tempo, passando para um registro simbólico.

Para Nikki Giovani (1971), escritora americana “tocar foi, ainda é, e sempre será a verdadeira revolução”. O tocar, para ela, está relacionado com a arte, com a poesia, e a revolução se refere a uma transformação cultural e social. Suponho, uma revolução  externa e uma revolução interna, pessoal, como a que propõe a psicanálise.

É citado uma diferenciação entre o tato e o contato. O contato em comparação com o tato, vai além do físico, ou seja, ele engloba o espaço que se configura entre pessoas e coisas, ele é um tocar intencional, afetivo. O contato com pessoas e objetos pode restabelecer o equilíbrio neurovegetativo. O contato permite conexão, ligação entre os indivíduos. Assim, o contato tem a ver com pulsão de vida, com Eros. O contato pode ser transmitido pelas mãos, pelo gesto, pelo olhar, pela fala, pela escuta, pelo cuidado, por todo o corpo. O que pode significar que todos esses elementos contêm erogeneidade.

Essa diferenciação entre tato e contato enfatiza e traduz a necessidade do toque afetivo para o desenvolvimento humano.

Atualmente, diversas áreas do conhecimento vêm sendo despertadas para a importância do toque e investigação dos impactos do mesmo sobre o corpo e o comportamento, sobre os vínculos sociais e o desenvolvimento infantil.

Finalizo citando Thérèse Bertherat (1977), uma fisioterapeuta francesa que trabalha com consciência corporal, e que fala no seu livro “O corpo tem suas razões” do corpo como uma casa, cujas paredes são a pele, a fáscia e os músculos:

“Nesse momento, onde você estiver, há uma casa com seu nome. Você é o único proprietário, mas faz tempo que perdeu as chaves. Por isso, fica de fora vendo a fachada, não chega a morar nela. Essa casa, teto que abriga suas mais recônditas e reprimidas lembranças é o seu corpo.”

Que possamos ultrapassar a valorização da imagem que está em voga na atualidade, e estar atentos às manifestações que se apresentam a flor da nossa pele, essa zona erógena que protege a nossa primeira casa, o corpo.

 

 

Referências

 

ALEXANDER, Gerda. A Eutonia. Um Caminho Para A Percepção Corporal. WMF Martins Fontes, 1983.

ANZIEU, Didier. O eu-pele. Tradução de Thereza Christina Stummer. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1988.

BERTHERAT, Thérèse. O corpo tem suas razões. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

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