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Françoise Mézières e Cadeias Musculares

2 de dezembro de 2021
1 Comentário

UNIDADE CORPORAL E RELAÇÃO DA ESTRUTURA COM A FUNÇÃO

 

Veja abaixo a entrevista com Françoise Mézières no vídeo:

Por Profa Laís Cristina Almeida, Ft, Psic, Me, ESP, DO

 

Figura 1 – Françoise Mézières. Fonte: NISAND; GEISMAR, 2007.

Na fisioterapia a abordagem que tem como um de seus princípios a unidade dos sistemas corporais e que nos é bastante familiar hoje em dia foi descoberta pela fisioterapeuta francesa Françoise Mézières (1909-1992). Ela lançou as bases do tratamento integral do corpo por intermédio das cadeias musculares e posturas globais de alongamento, revolucionando os princípios e a prática fisioterapêutica.

Atualmente os métodos fisioterapêuticos podem ser divididos em duas categorias. Os métodos analíticos que focam nos sintomas do paciente e os métodos globais que focam essencialmente nas causas dos sintomas. Os métodos de origem Mezieristas estão na categoria daqueles que tratam o corpo como um todo, são chamados de “Reeducação Postural” e concentram-se na modificação da estrutura. Estruturas são ossos, músculos, fáscias, articulações, vísceras, nervos… Estes métodos consideram como estruturas as cadeias musculares, viscerais, fasciais etc. O encurtamento dessas cadeias provoca desequilíbrios posturais e contribuem para modificar a estrutura, a postura. Uma das premissas da “Reeducação Postural” é que equilibrando as tensões das estruturas consegue- se melhorar as funções relacionadas a elas (ALMEIDA, 2006; COELHO, 2008).

 

Definições de postura

Para Kendall et al. (1995), postura é o alinhamento esquelético ideal que envolve uma quantidade mínima de esforço e sobrecarga, conduzindo à máxima eficiência do corpo. 

O dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1986), define postura como posição do corpo, atitude, aspecto físico. Como mostra Kisner e Colby (1998), postura é “uma posição ou atitude do corpo, o arranjo relativo das partes do corpo para uma atividade específica, ou uma maneira característica de alguém sustentar o corpo”. A atitude tem uma relação mais estreita com o comportamento, uma forma de ser, enquanto que posição do corpo e aspecto físico exprimem, sobretudo, o resultados de traumas, do stress e da fadiga, da utilização do corpo nos esportes, nas atividades físicas, na vida profissional e no cotidiano (ALMEIDA, 2006).

Kisner e Colby (1998) consideram má postura uma postura fora do alinhamento normal, mas sem limitações estruturais. Knoplich (1983) define como má postura aquela que apresenta falta de relacionamento das diferentes partes corporais, que induz ao aumento da agressão às estruturas de suporte, resultando em equilíbrio menos eficiente do corpo sobre a sua base. 

Na realidade, não se pode determinar uma postura ideal comum a todas as pessoas, pois esta é multifatorial. A postura é a consequência de variáveis internas e externas. Quando falamos de “postura” podemos estar nos referindo a um “fenômeno” constituído por diferentes fatores e níveis (COELHO, 2008). Vale a pena mencionar os fatores culturais, ambientais, emocionais, a dimensão simbólica, as características étnicas (ALMEIDA, 2006).

 

Cadeias musculares de sua origem aos dias atuais

“O fenômeno global do corpo é, do ponto de vista intelectual, tão superior à nossa consciência, ao nosso espírito, à nossa maneira de pensar, de sentir e de querer, quanto a álgebra é superior à tabuada de multiplicação”.

(Nietzsche)

Françoise Mézières nasceu em Hanói, Vietnã. Segundo Geismar (1993), o contato com o mundo oriental proporcionou-lhe uma concepção global do corpo e a consequente criação do seu método.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 2 – Françoise Mézières. Fonte: NISAND; GEISMAR, 2007.

Ela chegou à globalidade pela observação, até então inédita, dos deslocamentos das massas corporais. Em 1947, ela atendeu uma paciente de aproximadamente 40 anos, no Hospital Lariboisière onde trabalhava, em Paris. Esta paciente apresentava uma hipercifose torácica. Após colocá-la em decúbito dorsal, a fisioterapeuta tentou “abrir” seus ombros. Com grande surpresa, Mézières observou que a lordose lombar aumentou consideravelmente. Então, buscou reduzir a lordose lombar flexionando os quadris e colocando as coxas da paciente sobre o abdome e então constatou que a lordose cervical ampliou-se. Procurou minimizar a lordose cervical e ocorreu um bloqueio inspiratório, manifestado por um aumento de volume do tórax (NISAND; GEISMAR, 2017).

Após esta experiência, que repetiu inúmeras vezes, Françoise Mézières definiu cadeias musculares: uma cadeia muscular é um conjunto de músculos poliarticulares, de mesma direção e cujas inserções se cobrem umas sobre as outras à maneira de telhas sobre um teto. A partir desse novo conceito ela desenvolveu os princípios fundamentais de seu método de cadeias musculares e posturas globais de alongamento.

O primeiro princípio é que os músculos posteriores do corpo se comportam como um só músculo e se estende do crânio até as pontas dos dedos dos pés: assim ficou definida a cadeia posterior. Segundo ela, essa cadeia é tônica e solicitada o tempo todo, mesmo quando estamos em repouso. O esforço, a fadiga, o stress, os traumatismos, as atividades de vida diária, a idade, as doenças, a manutenção da dinâmica e da estática, encurtam esta cadeia. Assim, ela tem a tendência de nos “achatar” portanto, não deveriam ser musculada e sim alongada.

Outros princípios do método são que alongamentos segmentares provocam compensações em lateroflexões e rotações; que todo alongamento, dor, esforço, provoca bloqueio respiratório em inspiração; que a respiração não se educa, mas libera-se, significando que o bloqueio inspiratório está relacionado com o encurtamento das cadeias que deformam a estrutura. Quando se normaliza a estrutura, a respiração também se normaliza (GEISMAR, 1993; MÉZIÈRES, 1967). 

Mézières (1967) acreditava que, para tornar a posição ereta o mais econômica possível, para equilibrar-se, o homem desloca os seus segmentos da seguinte forma: a cabeça para a frente, o dorso para trás, o abdome para a frente, a pelve para trás. O polígono de sustentação ou contorno dos pés no solo tende a aumentar. O deslocamento das massas é responsável pelo nosso achatamento, e não o peso e a fraqueza dos músculos posteriores. Ela descreveu, inicialmente, quatro cadeias musculares (NISAND; GEISMAR, 2017): a cadeia posterior;  cadeia braquial: músculos anteriores do braço, antebraço e mão; a  cadeia ântero-interna: músculos diafragma e iliopsoas; a cadeia anterior cervical.

Por volta dos anos 80, Françoise Mézières registrou seu método no Institut Nationale de La Propriétè Industrielle utilizando o seu nome, o que obrigou alguns autores e associações que serão referidos a seguir a utilizarem outras denominações para os seus métodos. Então surgiram muitos outros métodos de origem “mezierista” e que se consideravam independentes dele. É o caso do método de Philippe Souchard (um antigo assistente de Mézières), a Reeducação Postural Global (RPG); dos métodos ensinados pela Association des Mezieristes d’Europe, pela Association des Mezieristes Internationale de Kinésithérapie (AMIK) ou pela Association des Mezieristes du Nord. Alguns outros consideravam- se de origem mezierista e relatavam evoluções que justificavam a mudança de nome. É o caso das “Cadeias Musculares e Articulares” de Godelieve Denys- Struyf; o método das “Cadeias Musculares” de Leopold Busquet e a Reconstrução Postural de Nisand (COELHO, 2008).

Myers, T., no livro Trilhos Anatômicos e Meridianos Miofasciais relata ao descobrir que as cadeias musculares já tinham sido descobertas por Françoise Mézières: “Fiquei decepcionado: as minhas ideias não eram totalmente originais… Aliviado: pois não estava totalmente fora  do caminho. Porém essas cadeias funcionais são baseadas em conexões funcionais diretas” de passagem. Os trilhos anatômicos são baseados em cadeias fasciais diretas”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 3 – Capa do Livro Fascia The Tensional Network of The Human Body. Fonte: Schleip et al. 2012.

No livro Fascia: The Tensional Network of the Human Body,  Schleip. R; Findley, T; Chaitow, L. Hujing, P., citam como pioneiros na descoberta das cadeias miofasciais e de modelos de tratamento: Françoise Mézières e Herman Kabat (com a facilitação proprioceptiva neuromuscular: ativação das cadeias musculares), entre outros.

O método Mézières evolui constantemente. O livro que divulgou para o grande público esse método foi O corpo tem suas razões, escrito por uma de suas alunas, Thérèse Bertherat. Devemos a Françoise Mézières uma nova visão e forma de tratamento, manual e global. Neste novo olhar, não se foca a dor, o sintoma, mas sim a modificação integral da estrutura para chegar-se às causas e melhorar a função. “A estrutura governa a função”, acreditava Mézières, assim como o criador da Osteopatia, Andrew Taylor Still.

 

Referências

BERTHERAT, Th. O corpo tem suas razões. 5ª Edição. São Paulo. 1981.

FERREIRA, A. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986.

KENDALL et al. Postura: alinhamento e equilíbrio muscular. Músculos, provas e funções. 4ª ed. São Paulo. 1995, p. 69-118

KISNER, C.; COLBY, L. Exercícios terapêuticos: fundamentos e técnicas. 3ª ed. São Paulo. 1998.

KNOPLICH, J. Enfermidades da coluna vertebral. São Paulo. 1983.

SCHLEIP, R. et al. Fascia: The tensional network of th human body. 1ª ed. Londres: Churchill Livingstone, 2012.

MÉZIÈRES, F. Retorno à harmonia morfológica através de uma reeducação especializada. Apresentação feita em 1967 no Centro Homeopático da França.

 

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COMENTÁRIOS:

F
felipe barros
Muito bom!!!

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